terça-feira, 8 de novembro de 2011

O que eu quero ser quando crescer



Faz um bom tempo que eu penso que é hora de voltar com força total e paixao total ao meu trabalho. Aquele sentimento todo que eu sentia e aquela empolgaçao me fazem falta. Acontece que eu sou uma pessoa passional, e um pouco obssecada, que dificilmente ama loucamente duas coisas (ou pessoas) ao mesmo tempo. Sim, é claro que amo varias pessoas ao mesmo tempo..minha mae, meus irmaos, minha familia toda...meu namorado, amigas e por ai vai...mas estou falando "daquela coisa", sabe? Aquela coisa que toma conta de ti, dos teus pensamentos, da tu cabeça... Enfim, acho que "aquela coisa" pelo meu trabalho ja passou, e nao vai mais voltar...A minha paixao e obssessao (para ser menos patologica talvez deveria dizer objetivo) agora sao outros. Talvez eu precise me acostumar a simplesmente amar tranquilamente e valorizar a minha profissao, que me sustenta e que tem me possibilitado viajar e conhecer o mundo.
E eu nao estou me lamentando, pelo contrario, estou bem feliz. Acabei de vivenciar dois otimos meses de trabalho aqui em Torino. Logo depois que voltei das férias, comecei a trabalhar num "restaurantezinho" muito simpatico, o Santa Margo, fazendo "aperitivo", de segunda a sexta, com um horario quase de gente normal. Digo restaurantezinho porque nao chega a ser um restaurante, é tipo um bar/café/pub.
E, aqui na Italia, o tal do "aperitivo" funciona assim: o cliente paga, digamos
6-7 euros, por um drink e varios petiscos..os petiscos variam de bruschetta, pizza, polpetinhas a massas, verduras grilhadas e, em alguns lugares, até carne.
Hoje é meu ultimo dia trabalhando ali e nesses dois meses eu pude me divertir bastante...fiz aquilo que eu gosto de fazer: criei, inventei, provei, misturei e enchi o Santa Margo de receitas da vovò (mas da vovò brasileira). Incrivel ver como eles adoraram a minha "pizza rapida"..um salgado que eu faço desde pequena e que talvez seja umas das receitas mais faceis e rapidas...a torta de banana da Dona Lourdes (minha "vòdrasta") faz sucesso por onde passa..pao de queijo entao, nem se fala... fui feliz trabalhando ali naquele restaurante pequeninho como nao consegui ser em nenhum momento dos 4 meses que trabalhei naquele hotel (que até hoje, so de pensar, me da calafrios)...
E tudo isso me fez pensar mais uma vez: o que eu quero ser quando crescer?
Amo o que faço e sou muito feliz quando trabalho em um lugar que me proporciona a liberdade que eu preciso. Mas amo também viver fora da cozinha...preciso do meu tempo livre (sem estar morta de cansada). Preciso, sei la, de alguma noite livre na semana para jantar com o meu namorado, para ver um filme ou nao fazer nada, mas preciso desse tempo. Sem isso nao consigo curtir as horas que passo dentro da cozinha. Sem isso, conto cada segunda para ir embora e odeio cada cliente que entra porta a dentro.
Umas semanas atras eu fiz uma entrevista via skype, para trabalhar como sub-chef do restaurante italiano de um super hotel de Pequim (mas SUPER mesmo). Na entrevista eles ja me alertaram que se trabalhava em média 12 horas por dia e que eu poderia ir pra casa so quando terminasse o que tinha pra fazer.... e detalhe, para nao-chineses eles nao pagavam hora extra. Nao fui a escolhida para o cargo, mas enquanto ainda falava com a moça que estava me entrevistando, eu ja tinha decidido: eu nao queria ser a sub-chef daquele lugar.
Ao longo desses poucos 4 anos de profissao eu ja percebi que, pra mim, mais vale uma cozinha com um fogaozinho de 4 bocas onde posso viver feliz do que uma cozinha cheia de equipamentos de ponta, mas que me oprime.
E assim eu chego na minha conclusao: eu nao vou ser nada mais do que sou agora quando crescer. Nao vou ser uma super chef conhecida ou estrelada (nao que eu me importe). Nao vou ganhar rios de dinheiro nem o premio de chef do ano, nao vou aparecer na tv nem dar entrevistas...mas vou viver e vou ser feliz, dentro e fora da cozinha.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Hora de retomar as "panelas" da situação

Oi...vocês podem não acreditar, mas ainda estou por aqui..depois de bons meses fora do ar resolvi tomar vergonha na cara e atualizar esse pobre blog abandonado.
As razões poderiam ser muitas, e na verdade elas existem, mas só uma delas é responsável pelo meu afastamento: a minha paixão ainda está de férias...a minha paixão pelo meu trabalho.
Um ano se passou desde que muita coisa mudou na minha vida e tirou a minha cabeça dos eixos, agora não dá mais pra adiar..é hora de voltar.
Claro que durante esse ano nunca fiquei sem trabalhar, mas nunca mais trabalhei com aquele amor..aquela paixão, de olhar para um prato novo como para quem olha para a sua própria "cria"..nunca mais trabalhei sem ficar olhando o relógio, contando as horas para ir embora. Nunca mais senti aquilo que sentia e que me fazia tão feliz.
Trabalhei na Itália por 4 meses, num hotel 4 estrelas super legal e bem equipado onde tínhamos cinco câmeras frias e duas de congelamento para armazenar alimentos diversos. Tínhamos uma máquina para fechamento à vácuo muito moderno e fornos de última geração. Eu trabalhava como chef de partida das carnes e como saucier. A minha bancada era só minha, a minha geladeira só minha e MEU fogão tinha 6 chapas só para mim..e tudo funcionava perfeitamente bem. Ou seja, tudo que eu sempre sonhei em ter quando trabalhava na minha cozinha de 20m² em Londres, eu tinha ali em Turim, mas tudo que eu conseguia sentir era vontade de ir embora.
Talvez a explicação seja a carga excessiva de horas de trabalho..talvez o fato de eu estar ali o dia todo, me fazia sentir vontade de nunca estar.
Mas não era só isso. O trabalho em si também não me motivava!
Passar os dias a fazer "ragù" não é bem o que eu sonhei pra mim...Mas ali, o que mais me "matava" era a impossibilidade de criar..a impossibilidade de mostrar qualquer coisa que eu houvesse aprendido antes..até porque quase tudo que eu aprendi antes não "estava de acordo" com as leis universais daquela cozinha.
Mas enfim, o perído no hotel já ficou pra trás. A minha vida já está retornando aos eixos (pelo menos assim eu espero) e uma nova aventura deve iniciar em outubro: estamos indo morar em Pequim, na China. Lá, eu preciso voltar a me dedicar e a viver de verdade o meu trabalho..preciso me deixar envolver e me apaixonar de novo...e preciso conseguir!
Já andei olhando alguns sites de restaurantes internacionais da cidade e me parece que tem um bom mercado para chefs de outros países. Por exemplo tem o SALT http://www.saltrestaurantbeijing.com, onde a chef é uma menina (não sei quantos anos ela tem, mas parece ser mais nova do que eu) venezuelana. O restaurante é um dos mais bem conceituados de Pequim e a Chef já recebeu diversos prêmios. Tem também o Casa Brasil http://www.casabrasil.cn/ ,que é um restaurante brasileiro, mas não como aqueles que vemos sempre no exterior, com aquele "menuzinho" básico de feijoada, moqueca e aipim frito..pelas fotos o Casa Brasil parece ser um lugar que tem tudo isso e muito mais. O dono é de Taiwan mas viveu no Brasil por muitos anos e o chef e um brasileiro. Outro muito bem recomendado é o Alameda, mas esse (não sei porque) não tem site.
A perspectiva é boa e daqui algumas semanas já começo a mandar alguns currículos...depois disso é só cruzar os dedos e começar a bater perna pela capital chinesa.
Um beijo e até breve, espero!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Verdades universais da cozinha

Ando mais uma vez sumida, eu sei. Mas dessa vez eu tenho como explicar: estou trabalhando num hotel 4 estrelas aqui em Torino e trabalho simplesmente o dia inteiro. Entro as 9 da manha. As 15h tenho um intervalo. Retorno às 18:30 e vou embora quase 11 da noite. Esta foi a minha quarta semana e desde que comecei a trabalhar nao faço nada a nao ser dormir, trabalhar e pedalar nas indas e vindas para casa. Ja chorei, ja quebrei coisas, ja briguei com meu namorado. Ja pensei mais de mil vezes em largar o trabalho e depois mudei de ideia. Realmente é dificil. Nao sobra tempo pra viver, mas enfim, é o que tenho para o momento. Decici resistir até o fim de junho, guardar uma grana para ter tempo de procurar algo "melhor". Dito isso, vamos ao assunto de hoje.
Quando fiz meu curso, aprendi técnicas de cozinha. Aprendi os cortes classicos, os pontos de cozimento de uma carne. Aprendi a limpar peixe e a fazer molhos e fundos. Aprendi tudo isso (e mais um milhao de outras coisas) como sendo o certo: aquilo que "se faz" por toda a parte.
Verdade?
Nao! Mentira.
A verdade é que cada chef tem "suas proprias verdades" e cada cozinha tem as suas leis.
O que para um é regra, para outro é um absurdo.
Ha que lave o peixe todos os dias, ha quem nem ao menos o congele. Ha quem o congela, descongela e depois congela de novo.
Tem aquele que enrola o queijo em filme plastico e tem o que ensina a colocar o filme plastico sobre o molho bechamel para nao fazer "crosta". O que enrola o queijo, condena colocar o plastico sobre o molho, e tem um terceiro, que tem "arranca o pescoço" se tu nao enrolar o queijo primeiro com papel de forno.
E quando se chega numa cozinha nvoa essa é a maior dificuldade (pelo menos para mim): conhecer as "verdades" do meu novo chef.
Como agir com autonomia e segurança se tudo que se foi aprendido pode estar errado?
Como usar meus conhecimentos se para o outro eles estao equivocados?
Descobri que, segundo meu novo chef, nem afiar uma faca eu sei!
Mas enfim, aos poucos vou descobrindo as verdades universais dessa cozinha.
Aos poucos também vou conhecendo a cozinha em si: qual a chapa do fogao que é torta, qual parte da grilha esquenta mais, qual frigideira é mais leve e quanto tempo demora para aquecer e esfriar. Aos poucos vou me sentindo mais em casa e inicio a sentir que "essa" parte da cozinha me pertence.
Mas acredito que por aqui nao fico por muito tempo. Até porque meu chef usa alface e frutas esculpidas para decorar os pratos de canapés!!!
Un bacio, ciao!!!

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A importância da comida...o prazer de compartilhar o amor por ela!




Sou de família italiana, então, como não poderia ser diferente, "lá em casa",
comer foi sempre muito mais que simplesmente comer.

Por muitos anos eu fui acordada aos domingos pela manhã com a cozinha "funcionando" a pleno vapor...a mesa coberta de farinha e massa fresca...uma panela de molho no fogo, que o nonno estava cozinhando desde as seis da manhã...hmmm, o cheiro de parmesão por toda a casa...ou às vezes, de pecorino..mas o pecorino nunca fez muito sucesso entre nós, "as crianças"...

Um dia era massa, no outro gnocchi..e aquela correria pra cozinhar tudo de uma só vez...8 mãos trabalhando juntas...todos pra mesa...atacar!!!

..."e tem mais uma forma de lazanha"..."espera que vou trazer a de carne"..."essa é sem ervilhas....o Duda não gosta...mas é ervilha fresca.."

Sempre igual, sempre maravilhoso...que saudades...

E somos italianos..mas somos muito brasileiros também...então, é claro: churrasco!!! E é aquela coisa: quem vai fazer a salada de batata, quem vai rechear o pão com alho...e passa o coraçãozinho e o salsichão primeiro...lá vem a picanha!!!

Comer, para nós, é um ritual...não é somente um levantar de garfos (mas sim, levantamos muitas e muitas vezes)...comer é um prazer, uma comunhão, é a partilha....compartilhar a comida e o amor por ela sempre esteve presente na minha vida. Dar prazer aos outros através da comida é uma das minhas maiores alegrias...

Pensar no que fazer no Natal, que sobremesa vai agradar a todos...fazê-los provar algo diferente ou fazer aquilo que eu sei que eles adoram...ir pra casa da minha dinda pra combinar o cardápio...ir para o Mercado Público com a minha mãe e a nossa lista de compras e passar o dia 24 de dezembro completamente atolada de trabalho e suando dentro da cozinha...me odiando a cada minuto por ter inventado de fazer tanta coisa...

Esse ano não vou, mais uma vez, passar o Natal em casa...mas é por um bom motivo.

E esse meu "bom motivo" é tão apaixonado por comida, quanto eu. Ele quase delira quando come um Ferrero Rocher...hmmm, la nocciola...hahaha....ele arregala os olhos como uma criança quando fala: "il polpettone..che buono che è il polpetone"..."hmmm, la burrata"..." il parmeggiano è geniale.."

Ele disse: "Quando chegarmos na Itália, a primeira coisa que vamos fazer é comer pizza...eu vou comer a de burrata...eu disse que eu também...e ele: então eu vou comer a de salsicha...e a gente divide, cada um come metade de cada".


Um dia, eu estava trabalhando e ele me mandou uma mensagem dizendo que estava fazendo uma surpresa pra mim...quando chega em casa, sou recebida pelo calor e o cheiro maravilhoso de um "ragù de una nonna"...que ele cozinhou por mais de 6 horas....simplesmente perfeito..de verdade, comida de vó!

Outro dia assei uma peça de presunto, e como somos só nós dois para comer, comecei a pensar no que fazer com aquele monte de carne...então,dei a idéia de fazer pastel de forno...ele abriu um sorriso, arregalou os olhos e disse: "si, con i piselli, funghi e il bechamèl"... O que mais eu quero da vida???

Mas sim, eu quero mais...quero o mesmo destino de Marlena de Blasi, a autora de "Mil dias em Veneza"...leram???

Se não leram e amam comida, histórias de amor e a Itália, corram agora pra comprar...O livro é uma delícia...leve, inspirador (tem as receitas de algumas delícias que ela prepara) e retrata um pouco da cultura italiana..a maneira como muitos vivem, se relacionam e, principalmente, comem!

Enfim, no final do livro (que tem continuação, "Mil dias na Toscana"), eles se mudam de Veneza para a Toscana, para morar em uma "villa" com 200 habitantes..entre campos de oliveiras e fontes de águas termais...com a idéia de transformar uma casa antiga em um pequena hospedagem, aonde os hóspedes podem jantar... Ainda não li a continuação e não sei se a idéia se concretizou, mas tenho certeza que valerá à pena pelos deliciosos relatos gastronômicos que ela faz muito bem.









Continuando a minha história...esse ano não passo o Natal com a minha família....mas tenho certeza que passarei com pessoas que também compartilham o amor pela comida!


Um dia, meses atrás, eu escrevi no twitter: "Quero um namorado para cozinhar para mim"... parece que alguém me ouviu :-)


Deixo vocês com algumas fotos de comidinhas simples e deliciosas que fizemos juntos...ou que ele fez pra mim, ou que eu fiz pra ele...









Beijos e vou pra cozinha fazer panquecas!!!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Julie & Julia - e o renascimento do meu amor


Confesso que há alguns meses venho me sentindo um pouco em "desamor" pela cozinha... Fiquei chateada e até preocupada em pensar que a minha paixão tinha acabado. Continuo trabalhando e sempre procuro fazer o melhor que eu posso, mas aquela "coisa", aquela loucura de estar sempre pensando em comida, sempre lendo e buscando coisas novas, sempre em torno do fogão, passou...

Ontem a noite, cheguei do trabalho cansada e de saco cheio da cozinha, mas, antes de dormir resolvi assistir o filme "Julie & Julia", com Meryl Streep interpretando a cozinheira americana Julia Child.

Julia Child foi responsável pela renovação do modo de cozinhar nos Estado Unidos e teve seu primeiro livro, Mastering the Art of French Cooking, publicado em 1961. Provavelmente muitos de vocês assistiram ao filme, e a quem não assistiu e gosta de cozinhar, eu digo: assita!!!

Durante o filme eu me dei conta de uma coisa: eu não deixei de amar a cozinha, eu enchi o saco foi do meu trabalho. Continuo apaixonada e encantada como sempre...amo cozinhar para pessoas queridas, adoro testar novas receitas..inventar...jogar tudo que "eu acredito" que combina pra dentro de uma panela e depois me surpreender com algo melhor do que eu imaginava.

Continuo preferindo passar duas horas fazendo compras num supermercado do que em uma loja de roupas..e olha que eu amo comprar roupas!!!

Sinto ainda com alegria a adrenalina que me envolve em um dia de movimento...quando trabalhamos em sintonia, como peças de uma mesma máquina...

Continuo sonhando em ter meu próprio negócio... o qual, é verdade, muda de nome e de estilo a cada 3 meses... Passou de um restaurante à um café e de um café a algo que eu não sei como chamar, mas sei que existe... Quando eu amadurecer melhor a idéia, volto aqui pra contar.

O que aconteceu entre mim e o The Wet Fish foi uma espécie de "desgate na relação"..que nem acontece com muitos casais.

Por vários motivos, que não cabem aqui (afinal não quero cuspir no prato que ainda como ), a minha paixão se foi...E hoje, eu muito felizmente, me dou conta, de que não tem nada a ver com a paixão pela cozinha, pelo ato de cozinhar...de passar horas planejando o que fazer para determinadas situações, horas escolhendo os melhores ingredientes e depois mais horas e horas descascando, cortando, salteando, assando.... Eu amo tudo isso e ainda me emociono quando faço algo que nunca fiz e esse algo fica perfeito. Fico toda boba e cheia de satisfação quando dou prazer aos outros através das coisas que cozinho..Esse amor nunca vai terminar..

Agora, só preciso de um pouco de ar...ou melhor, preciso respirar novos ares, novos sabores...uma nova cultura... Itália???

domingo, 24 de outubro de 2010

Três anos de cozinha..o que aprendi, o que desaprendi....o que mudou!


Agora, em novembro, fará 3 anos que trabalho como cozinheira...parece que foi ontem e ao mesmo tempo parece que faz uma eternidade que entrei na cozinha do Bistrô da Rua pela primeira vez. Primeira tarefa: descascar batatas..segunda tarefa: limpar a geladeira...acho que vou lembrar pra sempre.

Nesses 3 anos aprendi muito...mas hoje não quero escrever sobre o que aprendi em termos de técnicas ou como venho aprimorando meus conhecimentos...Hoje, quero falar do que aprendi sobre mim mesma, de como mudei minha maneira de ver as coisas e as pessoas e como isso afetou e vem afetando meus últimos meses no The Wet Fish Cafe.

Desde pequena, eu sempre gostei de mandar..sempre gostei de dar as regras do jogo, de inventar as brincadeiras, de decidir quem ia brincar com a Barbie loira e quem ia brincar com a morena, de quem ia ser a polícia e quem ia ser o ladrão.

Talvez, por eu ser a mais velha dentre meus irmãos e primos, isso nunca foi um problema..era natural que eu ditasse as regras.

Na cozinha, percebi que mandar era muito bom...muito melhor do que ser mandada...Claro, no começo ouvir as ordens era uma benção, já que eu não sabia muito o que devia ser feito...mas, depois de um tempo, comecei a ter mais confiança, e cada vez que recebíamos um estagiário eu ficava toda "boba", pois sabia que poderia dizer a alguém o que fazer...é uma bobagem, claro, mas dá uma sensação de "importância".

Confesso, com um pouco de vergonha, que eu adorava fazer o papel de megera...e segui nesse papel por bastante tempo. Não me importava em apontar os erros e as mancadas dos outros (agora, com bastante vergonha) e não me sentia nem um pouco mal se precisava xingar ou dar uma repreendida um pouco mais rude. Continuei assim por um bom tempo, no Bistro e também no The Wet Fish...tive desavenças com algumas pessoas (e inclusive escrevi aqui no blog) e nunca me importei se alguém não gostava de mim..eu estava ali para fazer o meu trabalho da melhor maneira possível e quem estivesse na minha frente para atrapalhar, era devidamente "varrido" para fora...

Quando tudo mudou? hmmm, provavelmente quando eu recebi todo o "poder" para mandar e desmandar: quando assumi a cozinha como "head-chef".

Nesse mesmo período eu me separei do meu ex-marido, e talvez, naquele momento eu estava precisando mais de amigos do que de funcionários...acabou que eu me tornei tão próxima e tão amiga de todos eles que não consegui mais ser "chefe"... muitas vezes eu via as coisas erradas mas não queria chateá-los, não me sentia bem para repreender e dizer que o que eles estavam fazendo era errado.

Fui deixando tudo correr solto demais e quando tentei reverter a situação, já era tarde. Hoje, tenho amigos, a cozinha está a "deus dará" e eu preciso colocar tudo no lugar antes de ir embora no final do ano.

Antes, as pessoas que vinham para fazer testes iam embora me odiando...semana passada, uma menina me abraçou e me beijou antes de ir embora... como foi que mudei tanto?

Por que é tão difícil encontrar o equilíbrio? Como se faz para que todos façam aquilo que tu queres mas ao mesmo tempo não te odeiem?

Aprendi que é difícil, muito difícil ser "o chefe" e que ainda preciso aprender muito. Mas a experiência foi válida...da próxima vez espero não errar tanto...

domingo, 3 de outubro de 2010

É importante reconhecer a hora de partir...


Woowww..quase 4 meses depois, cá estou eu de volta. Digamos que passei por alguns momentos de baixa inspiração e não quis vir aqui sem ter nada pra contar.

E agora, venho pra dizer que minha vida no The Wet Fish Cafe está com os dias contados.

Depois de muito pensar e repensar cheguei a conclusão que saber a hora de partir também é muito importante.

Eu aprendi muito e cresci muito profissionalmente durante esse mais de um ano e meio que passei por aqui, mas agora preciso de mais. Já dei a eles tudo o que eu tinha, tudo o que eu sabia..agora sinto que ando em volta, sempre de um lado para o outro, com mas mesmas coisas de sempre.

Eu preciso ver coisas novas, ver novos chefs trabalhando, vivenciar outros estilos, outras maneiras, outras culturas..preciso renovar a minha bagagem..não só renovar, mas fazer um "up grade"... Afinal, eu também não tenho tanta experiência assim. Desde que comecei meu primeiro curso de gastronomia, só se passaram 3 anos e alguns meses...por sorte (e também muita dedicação) consegui "subir" rápido, mas sinto que é hora de ir uns degraus abaixo para aprender um pouco mais.

Queria ir para uma cozinha grande, daquelas de filme, onde cada um fica numa seção..onde alguém vai gritar comigo e me dar uns xingões, hehehe...onde eu vou ter que reaprender a engolir sapos e ficar quieta quando alguém quiser me ensinar como fazer arroz..onde eu não vou participar das reuniões nem tomar decisões importantes...mas é disso que eu preciso, de novos desafios, de coisas à alcançar, de objetivos, do tipo: quero ser a sous-chef dessa cozinha... quero mais, quero ajudar a fazer o menu...

Eu preciso disso..por mais que eu ame meu trabalho, e amo muito, preciso de ter ambições, senão, com o passar do tempo, tudo fica meio chato e sem graça, sem grandes emoções.

Então, acredito que um pouco antes do Natal, eu vou em busca de um outro fogão..aonde ainda não sei, mas o mundo tá aí, cheio de cozinhas...e como diz meu "muso" Daniel Boulud, um chef pode trabalhar em qualquer lugar, pode colocar seu estojo de facas embaixo do braço e sair mundo à fora.

Com certeza vou sentir muitas saudades dessa minha cozinha, dessa família de malucos que tenho aqui em Londres...um polonês, Marcin, que gosta de ser chamado de "Polaco Primitivo" (apelido que ganhou do grego). Se faz de durão e quer que todos pensem que ele é do mal, mas no fundo tem um coração mole...Fala "kurwa"(puta em polonês) de 5 em 10 palavras...nas outra 5 ele fala "fucking". Mesmo assim, é o meu braço direito. O grego, Pavlos, acabou se tornando um dos meus melhores amigos e vai ser, com certeza, um dos que mais vou sentir falta. Ele é o kp (que lava as louças), mas digamos que a principal função dele naquela cozinha seja a de nos fazer felizes. Tem também o Andrew, o jamaicano, que está sempre disposto a me ouvir e a me dar conselhos do bem. Junto com o grego, faz o "shift" mais divertido da história, daqueles de chorar de rir..de quase fazer xixi nas calças de tanto gargalhar das besteiras que eles falam. Se tornou um grande amigo, a ponto da mulher dele me ligar pra me avisar que não quer essa amizade.." fui bem clara?" Santa paciência!
E, finalmente, temos o Wesley, o sul-africano..calmo, tranquilo..canta ópera e dança na cozinha. Quando eu deixo ele comer uma sobremesa, dança com movimentos obcenos...lava as mãos mais do que o necessário e gasta todo o rolo de papel toalha....é daqueles que quando a gente fala pra pedir ou explicar alguma coisa, fica o tempo todo dizendo: yeah, yeah, yeah, yeah...hehehe..provavelmente não ouve metade do que eu digo, mas mesmo assim se puxa..sabe como combinar sabores e tem um ótimo gosto para as apresentações.

Com certeza vou sentir muita falta dos "meus meninos"...que às vezes parecem meus filhos, disputando atenção e ficando com ciúmes quando eu defendo mais 'esse ou aquele"...e as mulheres que já trabalharam comigo na cozinha que me desculpem, mas trabalhar com homens e muito mais divertido.

Vou com a sensação de missão cumprida. Dei o melhor de mim e fico muito feliz pelos resultados que tivemos...agora, como sinto que não posso dar mais o meu melhor, é hora de partir.